A psicologia pode ser uma ciência da mente?

A Psicologia pode ser uma ciência da mente?*

B. F. Skinner

Muitos psicólogos, assim como os filósofos antes deles, procuraram dentro de si mesmos explicações de seu comportamento. Eles têm sentido sentimentos e observado processos mentais através da introspecção. Entretanto, a introspecção nunca foi muito satisfatória. Os filósofos tem reconhecido suas inadequações, mas insistem que, de qualquer maneira, trata-se do único método de auto-conhecimento. Psicólogos já tentaram aperfeiçoá-lo, utilizando observadores treinados e técnicas de se expor sem nenhuma censura, em relação as quais William James tinha pouco respeito. Introspecção já não é muito mais usada. Os psicólogos cognitivistas podem ver representações e podem até argumentar que são as únicas coisas que podem ser vistas, mas não afirmam que podem ver a si mesmos processando-as. Em vez disso, assim como os psicanalistas, que enfrentam o mesmo problema com os processos que não podem ser vistos porque são inconscientes, eles tiveram que se voltar para a teoria. Entretanto, teorias necessitam de confirmação, e para isso muitos recorreram à ciência do cérebro, onde pode-se dizer que os processos são examinados (inspected) e não introspeccionados (introspected). Se a mente é “o que o cérebro faz”, o cérebro pode ser estudado como se pode fazer com qualquer outro órgão. Eventualmente, então, a ciência do cérebro deveria nos dizer o que significa construir uma representação da realidade, guardar uma representação na memória, converter uma intenção em ação, sentir alegria ou tristeza, chegar à uma conclusão lógica e assim por diante.

Mas o cérebro origina o comportamento assim como se diz que a mente ou self o faz? O cérebro é parte do corpo e o que ele faz é parte do que o corpo faz. O que o cérebro faz é parte do que precisa ser explicado. De onde o corpo e o cérebro vem e por que ele muda sutilmente de momento a momento? Não podemos encontrar resposta a questão desta natureza na relação entre o corpo e o cérebro em si mesma, observada, quer pela introspecção, quer com instrumentos da psicologia.

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O comportamento do organismo como um todo é produto de três tipos de variação e seleção. A primeira – a seleção natural – é responsável pela evolução da espécie e, consequentemente, pelo comportamento da espécie. Todos os tipos de variação e seleção tem certas falhas, e uma delas é especialmente crítica para a seleção natural: ela prepara a espécie somente para um futuro que se assemelhe com o passado que a selecionou. O comportamento da espécie só é eficaz num mundo que se assemelhe bastante ao mundo em que a espécie evoluiu.

Essa falha foi corrigida pela evolução de um segundo tipo de variação e seleção – o condicionamento operante – através do qual, variações no comportamento do indivíduo são selecionadas por aspectos do meio ambiente que não são estáveis o suficiente para terem um papel na evolução. No condicionamento operante, o comportamento é reforçado, no sentido de ter sido fortalecido ou ter se tornado mais provável de ocorrer, por certos tipos de consequências, que adquiriram, inicialmente, o poder de reforçar através da seleção natural.

Uma segunda falha na variação e seleção é fundamental para o condicionamento operante: a seleção deve esperar pela variação. O processo, consequentemente, é em geral lento. Isto não foi um problema para a seleção natural porque a evolução poderia levar milhões de anos, mas um repertório de comportamento operante tem que ser construído durante o espaço de uma vida. O condicionamento operante tem que solucionar o “problema da primeira ocorrência”: como e por que as respostas ocorrem antes delas serem reforçadas?

O problema foi parcialmente solucionado pela evolução de processos através dos quais os indivíduos tiram proveito de comportamentos já adquirido por outros. Imitação é um exemplo. Ela, frequentemente, coloca o imitador em contato com as consequências reforçadoras responsáveis pelo comportamento imitado. O comportamento do imitador é “imprimido” no sentido de ter sido produzido pela primeira vez e, usualmente, quando há possibilidade de ser reforçado.

Neste ponto a espécie humana parece ter dado um passo evolucionário peculiar. Outras espécies imitam mas, se dão modelo de comportamento a ser imitado, isso ocorre apenas como produto de seleção natural. A consequência para oferecer o modelo (modeling) – que seria o comportamento do imitador – é muito remota para servir como reforçador operante. Apenas na espécie humana o comportamento do imitador reforça dar o modelo (modeling).

As espécies experimentaram uma outra mudança evolucionária única quando sua musculatura vocal ficou sob controle operante e quando o comportamento vocal começou a ser modelado e mantido por suas consequências reforçadoras. As pessoas puderam, então, iniciar (prime) o comportamento de outros dizendo-lhes o que fazer, bem como mostrando-lhes como fazer (presumivelmente, numa etapa posterior, consequências reforçadoras temporárias foram acrescentadas para tornar mais provável que o comportamento se mantivesse fortalecido, até que a consequência para a qual ele foi iniciado pudesse vir a atuar. Neste sentido, ensinar é adicionar reforçamento temporários).

Conselho pode ser útil em mais de uma ocasião, e ele é, então, frequentemente dado ou ensinado, de tal forma que é passado de pessoa para pessoa ou de geração para geração. Máximas (“great sayings”) e provérbios (“sayings put forth”) são exemplos. Eles descrevem mais propriamente contingências gerais de reforçamento – um tostão (assim como muitas outras coisas) poupado é um tostão (assim como muitas outras coisas) ganho. Regras são dizeres transmitidos por grupos, usualmente com consequências de reforçamento mais fortes. As leis dos governos e religiões descrevem as contingências de reforçamento (usualmente negativo) mantidas por estas instituições. Elas têm o efeito de avisos : pela obediência à lei uma pessoa se esquiva de comportar-se de maneiras que poderiam ser punidas. As leis da física e química (“regras de ação eficaz”) descrevem as contingências de reforçamento mantidas pelo ambiente físico.

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Dar modelos (modeling), dizer (telling) e ensinar, são as funções dos meios sociais chamados culturas. Diferentes culturas surgem de diferentes contingências de variação e seleção e diferem pela amplitude, através da qual, ajudam seus membros a solucionar seus problemas. Membros que os solucionam tem mais probabilidade de sobreviver, e com eles sobrevivem as práticas da cultura. Em outras palavras, as culturas evoluem, numa terceira forma de variação e seleção. Culturas que modelam e mantém comportamento operante são exclusivamente humanas. Sociedades animais têm características muito semelhantes, mas somente como produto de contingências de sobrevivência. A evolução cultural não é um processo biológico mas, como um tipo de variação e seleção, tem as mesmas falhas. O fato que uma cultura prepara um grupo somente para um mundo que se assemelhe ao mundo no qual a cultura evoluiu é a fonte da nossa preocupação atual com uma Terra habitável no futuro.

O processo de variação e seleção tem uma terceira imperfeição: variações ocorrem ao acaso e as contingências de seleção são acidentais. O que evolui não é uma única espécie em vagaroso desenvolvimento, mas milhões de espécies diferentes competindo entre si por um lugar no mundo. O produto do condicionamento operante não é um repertório único e coerente, mas milhares de repertórios menores, que se confrontam e cujos conflitos de alguma maneira terão de ser resolvidos. A evolução de meios sociais produziu não uma única cultura, mas muitas que, frequentemente, se conflitam.

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Embora o controle operante da musculatura vocal seja exclusivo da espécie humana, ele é raramente ou nunca citado como seu traço característico. O que se cita mais frequentemente é a presença ou ausência de “consciência” ou “inteligência consciente”. O papel desempenhado pelo cérebro/mente tem sempre sido um problema na comparação das espécies. Descartes excluiu o “homem” do seu modelo mecânico de um organismo, e Wallace, distintamente de Darwin, não acreditava que a evolução pudesse explicar a mente humana. Cientistas do cérebro expressaram reservas similares. Teóricos da evolução sugeriram que a “inteligência consciente” é um traço evolutivo, mas eles nunca mostraram como uma variação não física poderia surgir para ser selecionada por contingências físicas de sobrevivência. (A sugestão simplesmente desloca a aborrecida distinção físico-metafísico para um passo adiante a perder de vista). Tem sido dito que, provavelmente, jamais saberemos como a mente consciente evoluiu porque nada iria sobreviver para os paleontologistas descobrirem, mas o controle operante da musculatura vocal e o mostrar (showing), dizer (telling) e ensinar (teaching) que o acompanham sobrevivem e é possível que eles expliquem a introspecção e também o que é “visto” com sua ajuda.

A raiz “spect” (intro-spect-ion) sugere visão. Dizemos que nós “olhamos para” e “vemos” o que está acontecendo dentro de nós mesmos, mas nenhum olho interno jamais foi descoberto. Podemos evitar especificar um tipo de órgão dizendo observe (observar, notar, perceber, mencionar, comentar), notice (notar, perceber, reparar, citar), note (anotar, notar, prestar atenção, observar) ao invés de veja (see), e é significativo que observe, notice e note, e, menos comumente, remark (observar, notar, reparar), significam tanto ver (see) como dizer (say).Depende muito do que significa sentir qualquer parte do mundo com qualquer tipo de órgão. As teorias de input-output, bem como os modelos estímulo-resposta ou de processamento de informação, fazem uma nítida distinção entre sentir e fazer. Diz-se que sentimos o mundo antes de agir sobre ele. Entretanto, a análise experimental do comportamento atribuiu um papel muito diferente para o estímulo. Uma resposta operante tem mais probabilidade de ocorrer na presença de um estímulo que estava presente quando ela foi reforçada. Sentir (sensing) é tanto um produto de seleção e variação quanto fazer (doing). É uma parte de fazer. Por razões similares, a seleção natural explica a prontidão com a qual certos animais respondem instantaneamente as características do meio que tem sido cruciais para a sobrevivência de suas espécies, como a aparência, o som ou cheiro da comida, ou a oportunidade sexual, ou uma ameaça de perigo, incluindo o perigo do que não lhe é familiar. Os animais, presumivelmente, “recebem” todos os estímulos que os atingem, mas é possível que respondam somente aqueles que tenham tido um papel nas contingências de seleção (Não podemos saber se animais não verbais vêem estímulos que nunca tiveram este papel, porque teríamos que montar contingências que incluíssem tais estímulos a fim de descobrir isso). Nós próprios podemos ver coisas em relação às quais nós não tivemos nenhuma ação prática (vemos coisas que estão fora de alcance, por exemplo), mas, possivelmente, somente porque tenhamos falado a respeito delas. Ver coisas sem se engajar em uma ação é estar ciente (aware) delas. (A raiz da palavra aware é também encontrada na palavra wary (atento, alerta, precavido, prudente); nós estamos atentos as coisas que tenham sido parte de contingências negativas de seleção). A palavra consciente (conscious), usada mais freqüentemente que ciente (aware), significa co-conhecimento (latim: con-science) ou “conhecimento com outros”, uma alusão às contingências verbais necessárias para estar consciente.

Tudo isto é particularmente importante quando o que vemos está dentro de nosso corpo, o tipo de visão para o qual nós usualmente reservamos a palavra introspecção. Mas o que realmente vemos? Psicólogos que estão preocupados com a natureza metafísica da vida mental, freqüentemente, dizem o que vemos através da introspecção deve ser o cérebro, mas isto é improvável. Não temos nervos sensoriais indo até importantes partes do cérebro; um cirurgião pode operar um cérebro sem anestesia. Nenhuma contingência de seleção teria promovido a evolução de tais nervos antes do advento do comportamento verbal, e isto aconteceu tardiamente na evolução da espécie. É muito mais provável que o que vemos através da introspecção sejam os estágios iniciais do nosso comportamento, os estágios que ocorrem antes do comportamento começar a agir sobre o meio.

Sentir (sensing) é tal estágio: nós vemos coisas antes que respondamos a elas de alguma outra forma e vemos que as estamos vendo quando não fazemos nada além. As contingências necessárias são supridas pelas pessoas que nos perguntam se vemos coisas. O princípio da ação é um outro estágio inicial. Isto não suscita nenhuma questão sobre a disponibilidade de nervos sensoriais porque deveríamos ser capazes de ver os estágios iniciais com os mesmos nervos necessários para a ação completa. (É também possível que em certos momentos não estejam introspeccionando de forma alguma, mas respondendo à uma situação externa, como se “eu estou indo para…” significasse “em situações como esta eu usualmente fui…”).

Diz-se que os gregos teriam descoberto a mente, mas é mais provável que tenham sido os primeiros a falar mais extensamente sobre o que viram dentro deles mesmos e, assim, construíram as contingências necessárias para a introspecção. Os “Diálogos” da academia de Platão devem ter criado contingências sob as quais mais e mais dos estágios iniciais do comportamento poderiam ser vistos. Deve ter sido um mundo enigmático. Vemos um mundo público ao nosso redor, mas também o sentimos, o escutamos, sentimos seu gosto e o cheiramos. A única coisa que podemos fazer com o mundo interno é “vê-lo”. Não é surpreendente que os gregos o tenham chamado de metafísico.

Infelizmente, o que eles viram ocorreu nos exatos tempo e local de modo a ser confundido com uma causa do que tinham feito, e portanto, foi fácil supor que eles tinham descoberto um self ou mente que deu origem à ação. Se o que eles viram foi simplesmente uma parte inicial do que eles tinham feito, então, dizer que esta parte inicial é uma causa do resto que fizeram é o mesmo que dizer que o movimento de erguer o taco feito por um jogador de golfe é a causa da pancada que movimenta a bola. As partes iniciais do comportamento afetam as partes seguintes, mas é o comportamento como um todo que é o produto de variação e seleção.

Tal análise de introspecção e da “consciência” introspeccionada necessita de uma consideração cuidadosa, com certeza, mas todo esforço deve ser feito para preservá-la porque ela elimina qualquer necessidade de recorrer a um tipo especial de conhecimento ou a um tipo especial de substância conhecida. Ela permanece dentro do mundo da física e da química e das ciências de variação e seleção. Ela afasta qualquer sugestão de uma quebra nos processos de variação e seleção.

Duas ciências estabelecidas, cada uma com um objeto de estudo claramente definido, tem relação com o comportamento humano. Uma delas é a fisiologia do corpo com um cérebro – uma questão de órgãos, tecidos, células e as mudanças elétricas e químicas que ocorrem dentro delas. A outra é um grupo de três ciências interessadas na variação e seleção que determinam a condição daquele corpo e cérebro em qualquer momento: a seleção natural do comportamento das espécies (etologia), o condicionamento operante do comportamento do indivíduo (análise do comportamento) e a evolução dos meios sociais que geram comportamento operante e expandem muito sua amplitude (uma parte da antropologia). As três poderiam estar relacionadas da seguinte forma: a fisiologia estuda o produto enquanto que as ciências de seleção e variação estudam a produção. O corpo trabalha como o faz por causa das leis da física e química, e faz o que faz por causa de sua exposição às contingências de variação e seleção. A fisiologia nos conta como o corpo funciona; as ciências de variação e seleção nos conta porque é um corpo que trabalha daquela maneira.

As duas ciências observam princípios causais muito diferentes. O corpo com um cérebro obedece às leis da física e química. Ela não tem liberdade e não faz escolhas. Nenhuma outra visão do “homem como máquina” (neste caso uma máquina bioquímica) esteve tão bem apoiada. Alguns cientistas do cérebro defendem que o cérebro deve possuir características estruturais que possibilitam a liberdade de escolha, a criatividade e assim por diante, mas argumento assim estão de fato falando sobre o que o cérebro faz e não sobre sua estrutura. Tem sido dito também que a variação e seleção podem ocorrer no cérebro, mas embora o cérebro, como qualquer outra parte do corpo, sofra variações, as contingências de seleção estão no meio.

Quanto mais sabemos sobre a relação entre o corpo e o cérebro como uma máquina química, menos ela se torna interessante como base para o comportamento. Se há liberdade, ela deve ser achada na aleatoriedade das variações. Se novas formas de comportamento são criadas, elas são criadas pela seleção. As falhas na variação e seleção são fontes de problemas fascinantes. Nós devemos nos adaptar à novas situações, resolver conflitos e achar soluções rápidas. Uma estrutura bioquímica regida por leis não faz nada do gênero.

Simulações de computador do comportamento humano são máquinas eletrônicas planejadas para se compor como a máquina bioquímica do corpo se comporta. Nós sabemos como elas são programadas e construídas e, portanto, não fazemos questões a respeito de sua origem. Por esta mesma razão, as simulações não apresentam um interesse especial para os analistas do comportamento. As coisas interessantes da vida vem dos caprichos da variação e seleção na construção da máquina.

A análise do comportamento é a única das três ciências de variação e seleção a ser estudada extensamente no laboratório. Os etologistas observam o comportamento em campo e reconstroem a evolução a partir de evidências que sobreviveram dos tempos remotos. A etologia é apoiada por uma ciência de laboratório, a genética, mas ninguém até hoje produziu uma nova espécie com um repertório de comportamento inato em condições de laboratório. A evolução de uma cultura é também principalmente uma questão de inferências da história. É a velocidade que faz a diferença somente o condicionamento operante ocorre suficientemente rápido para ser observado do começo ao fim. Pela mesma razão, é a única das três ciências a ser bastante usada para propósitos práticos na vida diária.

Portanto, é difícil entender porque o condicionamento operante não tem chamado mais atenção. O papel da seleção e variação no comportamento do indivíduo é em geral simplesmente ignorado. A sociobiologia, por exemplo, pula do sócio – para o bio -, passando sobre o elo individual. Muitos dos psicólogos que estudaram o comportamento também negligenciaram a variação e seleção. A lei do efeito de Thorndike chegou perto, mas seu experimento sugere que as variações eram tentativas e as conseqüências erros. Watson, Lashley e Hull apelaram para a formação de hábitos e estímulo e resposta. O propósito de Tolman, como orientação para uma meta ou a utilidade subjetiva esperada, projetou cópias das conseqüências passadas no futuro, como atrações que pareciam empurrar o comportamento.

A análise do comportamento é a mais jovem das três ciências (teorias da seleção natural e da evolução das culturas datam do meio do século XIX, e a análise do comportamento somente do fim do primeiro terço do século XX), mas a imaturidade não explica por que ela é negligenciada. Uma explicação melhor poderia ser a de que o seu campo de estudo foi ocupado por muito tempo pela teoria extraordinária intrigante da mente ou self interno como agente causal.

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Não falamos as linguagens da ciência do cérebro e da análise do comportamento na nossa vida diária. Não podemos ver o cérebro e sabemos muito pouco a respeito da história de variação e seleção responsáveis por uma dada manifestação de comportamento. Em vez disso, usamos uma linguagem que existe desde muito antes da existência de qualquer tipo de filósofos ou cientistas. É apropriadamente chamada de vernáculo. A palavra significa, como sua raiz significava para os romanos, a linguagem doméstica, utilizada na vida diária. Todos nós a falamos. É a linguagem dos jornais, revistas, livros, rádio e televisão. Quando falamos do comportamento do indivíduo, é a linguagem dos cientistas comportamentais que utilizamos: psicólogos, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e economistas. William James escreveu Os Princípios de Psicologia, de forma vernacular. Os behavioristas falam-na em sua vida diária (e os jovens behavioristas devem aprender a fazê-lo sem constrangimento).

O vernáculo se refere a muitos sentimentos e estados da mente. Em inglês, nós dizemos que fazemos o que nós temos vontade de fazer (we feel like doing), ou o que nós precisamos fazer (we need to do) a fim de satisfazer nossos desejos. Nós dizemos que estamos famintos e estamos pensando em arranjar alguma coisa para comer. É fácil supor que as referências dizem respeito a uma mente iniciadora mas, como vimos, as alusões úteis se referem às contingências anteriores de seleção, ou aos primeiros elos (beginnigs) de ação. A partir da frase “eu estou faminto” inferimos que uma pessoa não come há algum tempo e, provavelmente, irá comer quando o alimento estiver disponível. Por “estamos pensando em arranjar alguma coisa para comer” inferimos uma probabilidade de fazer algo que torne o alimento disponível.

Através do uso do vernáculo com suas alusões à história pessoal e probabilidade de ação, a psicologia emergiu como uma profissão eficaz, essencial e altamente respeitada. A tentativa para atribuir as referências aparentes à uma mente iniciadora e converter o vernáculo em linguagem de uma ciência foi, no entanto, um equívoco. Watson e outros antigos behavioristas pensavam que o equívoco estava em utilizar a introspecção. Com que eficiência os sentimentos poderiam ser sentidos ou os processos mentais serem vistos? Antecipando o positivismo lógico eles argumentaram que um evento visto apenas por uma pessoa não tem lugar na ciência. Entretanto, o problema não era a introspecção. Era a mente ou self iniciador ao qual a introspecção parecia conseguir acesso.

No contato face à face com outra pessoa, referências a um self iniciador são inevitáveis. Há um “você” e um “eu” . “Eu” vejo o que “você” faz e ouço o que “você” diz, e “você” vê o que “eu” faço e ouve o que “eu” digo. Nós não vemos as histórias de seleção responsáveis pelo que é feito e, portanto, inferimos uma origem interna, mas o uso bem sucedido do vernáculo na prática da psicologia não oferece apoio para o seu uso em uma ciência. Numa análise científica, histórias de variação e seleção desempenham o papel do iniciador. Não há lugar numa análise científica do comportamento para uma mente ou self.

O que, então, deveremos fazer com o fato de que por cem anos, os psicólogos tentaram construir justamente tal ciência da mente? O que fazer com as brilhantes análises que tem sido feitas de inteligência, ou com as reivindicações do valor do conceito de utilidade subjetiva esperada ou com as equações que foram escritas para descrever o espaço psicológico? Terão sido partes de uma procura por alguma coisa que não existe? Parece que assim é, mas não está tudo perdido. A inteligência, nunca introspeccionável, é, claramente, uma inferência de amostras de comportamento em testes de inteligência, e uma análise de diferentes tipos de comportamento. A expectativa, outro tipo de “visão” (spection) não pode, possivelmente, significar estar vendo o futuro e deve ser o produto de contingências passadas de reforçamento. Utilidade significa aplicável ou de uso, o ato ou meios de fazer alguma coisa de tal forma que seja seguido por conseqüências. O espaço psicológico é um espaço real que entra no controle das contingências de reforçamento; o ponto é até que grau um estímulo presente quando uma resposta é reforçada, generaliza-se de tal forma que estímulos similares que não estavam presentes exercem controle. Em suma, embora sem intenção, os psicólogos tem analisado contingências de reforçamento, exatamente aquelas responsáveis pelo comportamento, equivocadamente atribuído a um originador interno.

Mas que dizer sobre os ilustres filósofos que atravessaram os séculos e tentaram seguir a determinação do oráculo de Delpho e conhecer a si mesmos através da introspecção? Há uma justificativa similar ou tem eles perseguido uma meta ilusória ou indefinível? Dizer isto pareceria um tanto quanto arrogante se não houvesse um paralelo esclarecedor. Igualmente, homens e mulheres ilustres procuraram por muito tempo e com grande dedicação por um outro Criador, (escrito com a letra “C” maiúscula) cujos feitos relatados tem sido também questionados pela ciência. Darwin assinalou a diferença. Vale para a origem do comportamento aquilo que vale para a origem das espécies. Após quase um século e meio a evolução ainda não é totalmente compreendida. Ela é vigorosamente contestada pelos defensores de um criador. E, como resultado disso é ainda impossível ensinar biologia de maneira adequada em muitas escolas americanas. Uma ciência da criação tem sido proposta para ser ensinada no seu lugar. O papel da seleção e variação no comportamento do indivíduo sofre a mesma oposição. A ciência cognitiva é a ciência da criação da psicologia, na medida que luta para manter a posição de uma mente ou self.

A história da psicologia é instrutiva. Ela começou há cem anos atrás com a busca introspectiva da mente. Watson atacou a introspecção em seu manifesto behaviorista de 1913, e por esta ou outras razões a introspecção foi, essencialmente, abandonada. Os behavioristas voltaram-se para o estudo do comportamento de professores, estudantes, terapeutas, clientes, crianças em desenvolvimento, pessoas em grupos e assim por diante.

Psicólogos cognitivistas tentaram restabelecer o status quo. Eles declararam: o behaviorismo está morto. Eles, possivelmente, não queriam dizer que os psicólogos não mais estavam estudando comportamento de animais em laboratórios, de professores, de terapeutas, de estudantes, de clientes, etc. O que eles esperavam que estivesse morto era a proposta da seleção por conseqüências para a explicação do comportamento. A mente, ou na falta dela, o cérebro deveria ser recolocado na sua posição correta.

Por causa da sua similaridade com o vernáculo, a psicologia cognitivista foi facilmente entendida, e a tão falada revolução cognitiva foi bem sucedida por um tempo. Isto deve ter acelerado a velocidade com a qual os analistas do comportamento retiraram-se das instituições psicológicas, fundaram suas próprias associações, programaram seus próprios congressos, publicaram seus próprios periódicos. Eles foram acusados de construir seu próprio gueto, mas estavam simplesmente aceitando o fato de que tinham pouco a ganhar com o estudo da mente criativa.

A psicologia cognitiva foi posta como a companheira científica de uma profissão e como o suporte científico nas áreas da educação, da clínica, do desenvolvimento, do social, e de muitos outros campos da psicologia. A ajuda que lhes deu não foi notável. Uma versão refinada do vernáculo para o estudo da vida mental não é mais útil do que a versão leiga, principalmente, quando a teoria começa a substituir a introspecção. Muito mais útil seria a análise do comportamento. Ela poderia ajudar de duas maneiras: pela clarificação das contingências de reforçamento às quais o vernáculo se refere, e por tornar possível o delineamento de ambientes melhores: ambientes pessoais que poderiam solucionar os problemas existenciais e ambientais maiores ou culturas nas quais haveria menos problemas. Uma melhor compreensão da variação e seleção significará uma profissão melhor sucedida, mas se análise do comportamento será chamada de psicologia é um problema para o futuro decidir.

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Este artigo foi completado no dia 17 de agosto de 1990, a noite antes do Dr. Skinner morrer. Serviu como base para suas idéias básicas apresentadas na 98a Convenção Anual da Associação Psicológica Americana, em Boston, e foi escrito para ser publicado no American Psychologist.

* Skinner, B. F. (1990) Can psycology be a science of mind? American Psychologist, 45 (11): 1206-1210.

** Texto traduzido por Hélio José Guilhardi e André Luis Jonas.

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